A reforma da pós-graduação – I

Publicado em 24/04/2011

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Série de cinco artigos publicados na última edição da revista Nature discute o estado atual dos programas de doutorado no mundo. Apresentam diferentes pontos de vista, e com uma temática diversificada sobre o assunto. O primeiro artigo é de autoria de Mark C. Taylor, chefe do departamento de religião da Columbia University (New York), o qual apresenta uma posição que eu classificaria como bastante radical:

“The system of PhD education  (…) is broken and unusustainable (…) it creates only a cruel fantasy of future employment that promotes the self-interest of faculty members at the expense of students.”

[“O sistema de educação do doutorado (...) está quebrado e é insustentável (...) cria somente uma fantasia cruel de se conseguir empregos que promove o interesse próprio dos acadêmicos às custas dos estudantes.”]

Taylor define o atual sistema de doutoramento como tendo por base um modelo criado na idade média européia, em que os estudantes seriam formados como clones de seus mentores. Em consequência ao grande número de alunos formados, atualmente não existem mais vagas nas universidades norte-americanas para carreiras acadêmicas. Além disso, a crise de 2008 levou muitas universidades (senão todas) a perdas significativas de capital, tornando praticamente impossível o investimento na contratação de novos quadros. A crise também afetou o sistema federal de financiamento, e os recursos para o sistema acadêmico ficaram ainda mais limitados. Como a competição por recursos aumentou muito, Taylor propõe uma mudança radical no sistema de pós-graduação norte americano, que é principalmente focado no doutorado (PhD).

Sendo assim, defende mudanças tanto de caráter curricular como institucional. Considera que a formação dos estudantes de doutorado é por demais especializada, fragmentada e por vezes irrelevante. Propõe que as universidades devem “quebrar as paredes” que separam os diferentes campos de conhecimento, e fortalecer programas que promovam formação interdisciplinar. Os currículos deveriam ser alterados para focalizar na resolução de problemas reais. Para tanto, Taylor considera imprescindível que as instituições deixem de atuar de maneira independente, e que os problemas sistêmicos possam ser abordados de maneira mais abrangente e cooperativa. Também propõe que programas de doutorado redundantes sejam eliminados. A reforma proposta por Taylor também incluiria abolir o sistema competitivo de avaliação de “rankings” das universidades, para que estas possam atuar de maneira mais cooperativa, compartilhando professores, estudantes, recursos, de maneira a aumentar as oportunidades de educação de doutorado de maneira eficiente. Tal tipo de “consórcio” seria constituído por membros permanentes e não-permanentes de várias instituições, reduzindo o número de programas de pós-graduação e de orientadores. Desta forma, os alunos teriam acesso a uma maior diversidade de professores/pesquisadores com diferentes formações, o que seria um fator adicional para incrementar sua formação. Taylor conclui que, embora o sistema educacional como um todo deva sofrer uma reformulação, deve-se começar do topo, com uma total reformulação dos programas de pós-graduação, de todas as áreas.

E no Brasil? Como tais propostas de mudanças seriam consideradas?

A grande maioria dos programas de pós-graduação brasileiros é muito recente e ainda está amadurecendo. Os programas consolidados mudaram muito pouco nestes últimos 20-30 anos. A adoção de exames de seleção e ingresso, disciplinas obrigatórias e optativas para cada programa ou áreas de concentração de um mesmo programa, exames de qualificação e defesa de tese é um sistema de pós-graduação bastante tradicional no Brasil. Finalmente, o sistema brasileiro de avaliação da pós-graduação ainda é essencialmente “métrico” (no sentido de se adotar indicadores como índices de publicações, tempo de titulação, qualidade das publicações considerando-se quase que exclusivamente fatores de impacto das revistas científicas, número de egressos/ano, dentre outros indicadores), talvez em decorrência de uma dificuldade intrínseca de se realizar uma avaliação de caráter qualitativo. A CAPES, responsável pela avaliação de todos os programas de pós-graduação do Brasil, estabelece critérios bastante definidos para a avaliação dos programas de pós-graduação. Embora a avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação do Brasil seja necessária, o modelo de pós-graduação de cada instituição, ou de cada programa, deveria ser definido pela própria instituição. Porém, isso tornaria a avaliação dos programas muito mais difícil de ser realizada.

Voltando ao artigo de Taylor, este ignora o papel essencial do mercado no direcionamento da formação dos doutores norte-americanos. Ora, a contratação de doutores por empresas está estabelecida há mais de 100 anos nos EUA, e simplesmente não pode ser negligenciada quando se leva em conta a necessidade da formação de doutores, bem como das áreas de especialização “em voga”. Taylor argumenta que o mercado acadêmico dos EUA está saturado. E daí? Faz décadas que a grande maioria dos doutores formados nos EUA não são contratados pelas universidades, e sim por empresas. E esta foi uma característica que fez com que as empresas norte-americanas se tornassem extremamente competitivas, e este modelo foi exportado para o Japão do pós-II Guerra Mundial. Em muitos países europeus isso também é verdade. Mas no Velho Mundo a situação parece estar um pouco mais crítica, pois ao que tudo indica o interesse dos estudantes em fazer pós-graduação têm diminuído ano após ano. Tais fatores justificariam plenamente uma re-avaliação dos programas de pós-graduação, mas certamente não em função do mercado de trabalho acadêmico.

Se o que Taylor diz sobre a origem medieval do modelo atual da pós-graduação é verdade, já passou da hora deste ser revisto. A “clonagem de mentores” deveria realmente ser muito questionada. Embora a especialização seja desejável, a especialização em excesso faz com que o profissional formado tenha uma visão de seu universo de atuação bastante limitada. O problema é que no Brasil esta especialização está ocorrendo já nos cursos de graduação. Muitos cursos de graduação estão oferecendo “ênfases” ou “especializações” atraentes, “da moda”, ou que às vezes atendem a interesses de alguns grupos de pesquisa da instituição que oferece tais cursos. E aí mora o perigo: a especialização excessiva prematura pode levar à formação de profissionais completamente obnubilados.

Algumas instituições brasileiras já oferecem alguns cursos de pós-graduação de caráter interdisciplinar. O fortalecimento de tais programas, ou a criação de programas realmente interinstitucionais (envolvendo diferentes universidades) é um desafio interessante. Porém, focalizar a formação dos alunos para a resolução de problemas reais é enxergar a formação destes com um viés limitado. Também é desejável que existam doutores que se dediquem à pesquisa básica, fundamental. Tal opção deve ser de escolha do candidato ao doutorado, como já ocorre normalmente quando da escolha do orientador: destes, alguns apresentam linhas de pesquisa de caráter mais fundamental, outros de caráter mais aplicado. Os alunos buscam uns, ou outros.

Eliminar o sistema de avaliação por “rankings” é um sonho. Mesmo assim, a atuação das universidades de maneira mais cooperativa, como proposto por Taylor, é uma proposta inteligente, inclusive para melhor aproveitamento de recursos e para a formação de “centros”. Talvez estes surjam naturalmente no Brasil nos próximos anos, como consequência do programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, financiados tanto por órgãos de fomento federais como estaduais (a FAPESP, por exemplo, é a segunda maior financiadora dos INCTs).

Mas começar a reformulação do sistema educacional a partir do topo? Será este o caso?

ResearchBlogging.orgTaylor, M. (2011). Reform the PhD system or close it down Nature, 472 (7343), 261-261 DOI: 10.1038/472261a

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Publicado em: educação